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Noah na Folha: Empresas trocam concreto por madeira para erguer edifícios

A Noah foi destaque na Folha de São Paulo em matéria que fala sobre o crescimento do uso da madeira na construção civil. Matéria original no link, escrita pela Ana Luiza Tieghi.



Ainda raros na paisagem brasileira, os prédios feitos com estrutura de madeira entraram nos planos das construtoras.

A startup Noah, por exemplo, quer erguer de três a cinco prédios comerciais de até 11 andares em São Paulo, nos bairros de Vila Madalena, Jardins e Itaim Bibi e na região das avenidas Rebouças e Paulista. Todos feitos com madeira engenheirada.

“Enquanto o norueguês nasce em uma casa de madeira, sabe o que é cheiro, o visual dela, nós crescemos com a história dos Três Porquinhos. Há um mito para ser quebrado”, afirma Nicolaos Theodorakis, diretor-executivo da startup.

Provar que não basta um sopro bem forte para derrubar um edifício de madeira é um dos desafios do negócio, que foi fundado em 2019. Para isso, pretende usar R$ 230 milhões a serem captados em um fundo de investimento.

A construção em madeira já existe há anos no Brasil, e há diferentes tecnologias para se fazer isso. Para construções maiores e mais altas, ainda raras por aqui, a madeira engenheirada é a melhor opção.

Como explica Marcelo Aflalo, professor do curso de arquitetura da Faap e coordenador técnico da pós-graduação em Arquitetura em Madeira do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), a madeira engenheirada é um produto feito com várias placas de madeira agrupadas, que podem ser coladas no mesmo sentido ou de forma cruzada. Essa técnica gera produtos com usos distintos, como o CLT (cross laminated timber, ou madeira laminada cruzada) e o MLC (madeira laminada colada).

Projeto para um dos prédios comerciais que a proptech Noah quer construir em São Paulo, o Paulistânia, feito em madeira engenheirada (CLT)







Projeto para um dos prédios comerciais que a proptech Noah quer construir em São Paulo, feito em madeira engenheirada (CLT) Divulgação

O primeiro é o tipo mais popular de madeira engenheirada, e é possível fazer construções apenas com ele, que vem em forma de grandes placas. Já o MLC é indicado para formar estruturas que precisam suportar compressão, como vigas e pilares, e pode ser usado para reforçar estruturas de CLT e permitir prédios ainda maiores.

Esse tipo de construção com altura é realidade fora do Brasil. O primeiro prédio residencial de CLT, Stadthaus, foi erguido em 2009 em Londres, com nove andares. Desde então, já foram feitos prédios de até 85 metros de altura, com CLT e MLT, como no caso do Mjøstårnet, construído em 2019 na Noruega, e edifícios ainda maiores estão a caminho.

Prédios de madeira são interessantes para a construção civil porque são industrializados. As peças que compõem a estrutura são feitas em uma fábrica e já chegam prontas ao local da obra, apenas para serem encaixadas, o que reduz o tempo de construção, a quantidade de trabalhadores necessários e acaba com o desperdício de material.

“As peças vão prontas, numeradas, chegam na obra na ordem da montagem. É tudo muito limpo e seco, na obra só tem gente que trabalha com furadeira e parafusadeira”, afirma Aflalo.

A madeira também gera um impacto ambiental menor do que o aço e o concreto, materiais não renováveis e que demandam muita energia elétrica para serem feitos. O apelo ambientalmente correto do material pode ser um chamariz para negócios preocupados com a imagem de sustentabilidade.

“Institucionalmente, é muito forte você poder dizer para o mercado que se preocupou em ser mais sustentável na hora de escolher o local de trabalho”, diz Theodorakis.

Segundo a Noah, o fato dos prédios de madeira engenheirada ajudarem as empresas a seguirem princípios ESG (ambiental, social e governança, na sigla em inglês) também está atraindo capital para o negócio.

A startup não pretende construir prédios residenciais no momento. “Já tem empresas que são construtoras de casas, tem gente boa fazendo, não tem por que competir com isso”, diz o Theodorakis.

Aflalo analisa que a inserção de prédios comerciais de madeira engenheirada é um bom jeito de começar a ter edifícios assim no país, já que convencer as pessoas a comprarem apartamentos pode ser mais difícil.

A Crosslam, empresa de Suzano (SP) que fabrica CLT há mais de 8 anos, topou esse desafio. Eles já produzem casas e estruturas industriais de madeira engenheirada, e vão lançar no final de setembro o Aurora 275, seu primeiro prédio residencial feito de CLT, com cinco andares e dez unidades de 74 metros quadrados.

O edifício ficará na mesma cidade da fábrica, e, segundo José Alberto, diretor da empresa, as estruturas já estão sendo produzidas. A obra deve levar cerca de cinco meses.

“[A madeira é] um material natural que provoca bem estar, o ser humano tem uma relação com esse material, deixa ele mais calmo. É excelente isolante térmico e acústico”, afirma Alberto.

Ao contrário do que pode pensar o senso comum, o material é resistente a incêndios. Aflalo explica que as placas de madeira engenheirada são calculadas para aguentarem o fogo por até duas horas, o que dá tempo hábil e previsibilidade para uma evacuação.

A madeira utilizada para fazer as placas de CLT é pinus e eucalipto, provenientes de florestas plantadas. Segundo Aflalo, os estados de Paraná e São Paulo são os produtores nacionais do material.

De acordo com Theodorakis, da Noah, hoje a construção de um prédio em madeira engenheirada é um pouco mais cara do que um prédio comum, mas ele acredita que essa diferença pode deixar de existir no curto prazo.

Poder ter prédios em madeira seria uma opção interessante em um momento como o atual, de aumento no custo dos materiais de construção —o INCC (Índice Nacional de Custo da Construção), que mede a inflação do setor, acumula alta de 17,05% nos últimos 12 meses.

A dinâmica da produção da madeira, se comparada com a do aço e do concreto, ajuda a evitar altas repentinas no seu preço, segundo Alberto. “Você precisa plantar essa árvore, tem todo o tempo de crescimento, são sempre investimentos de longo prazo e isso traz estabilidade de preço”.

INCORPORADORA APOSTA EM MADEIRA PARA ERGUER CASAS POPULARES NO INTERIOR

A Tenda lançou em junho uma nova marca, chamada Alea, que vai produzir casas feitas com outra tecnologia de construção em madeira, o wood frame. O método construtivo utiliza pilares e chapas de madeira recheadas com lã de vidro ou de rocha, que são produzidas em uma fábrica e transportadas ao local do empreendimento.

Como conta Marcelo Melo, diretor-executivo da Alea, o wood frame permite a construção de mais de um andar, mas a escolha por casas foi geográfica —a empresa vai investir nesse tipo de construção, em geral, fora de regiões metropolitanas, onde há mais desejo por casas do que apartamentos.

A Tenda buscava há quatro anos um método construtivo offsite, no qual a maior parte da obra é produzida em uma fábrica, para investir em cidades menores, e encontrou a solução no wood frame. “No método que usamos hoje, de forma de alumínio e paredes de concreto, temos uma escala mínima de produção de mil unidades por ano. Com a inserção do modelo de construção offsite, temos a oportunidade de trabalhar em outras regiões, com cidades médias e pequenas”, afirma Melo.

A Tenda comprou uma fábrica em Jaguariúna (SP) para produzir os painéis de wood frame, com maquinário sueco, que poderão atender a construções em um raio de mil quilômetros.

Dois empreendimentos pilotos com o material já foram lançados, em Leme e em Mogi das Cruzes, ambas em SP. Um terceiro será erguido em Santa Bárbara d’Oeste. As casas fazem parte do programa Casa Verde e Amarela.

Segundo o diretor-executivo, o plano é testar as construções e a expansão da produção por dois anos, com a meta de chegar a 10 mil casas fabricadas de wood frame por ano em 2026, com potencial para atingir 30 mil. Para comparação, a Tenda produziu 18 mil residências em 2019.

“Enxergamos no wood frame um alto potencial de industrialização que traz vantagem competitiva, de custos, quando produzimos em escala”, afirma. “No ambiente de fábrica, tem ganho de eficiência com automação, tem produção livre de intempéries, pode ter jornadas de três turnos.”

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